quinta-feira, 11 de setembro de 2008

ASSIM VAI O NOSSO PAÍS

Levaram-me o Plasma
Mário Crespo
Jornal de Notícias de 21/07/2008


O homem, jovem, movimentava-se num
desespero agitado entre um grupo de mulheres
vestidas de negro que ululavam lamentos. 'Perdi
tudo!' 'O que é que perdeu?' perguntou-lhe um
repórter.
'Entraram-me em casa, espatifaram tudo.
Levaram o plasma, o DVD a aparelhagem...'
Esta foi uma das esclarecedoras declarações dos
autodesalojados da Quinta da Fonte. A imagem
do absurdo em que a assistência social se tornou
em Portugal fica clara quando é complementada
com as informações do presidente da Câmara de
Loures: uma elevadíssima percentagem da
população do bairro recebe rendimento de
inserção social e paga 'quatro ou cinco euros de
renda mensal' pelas habitações camarárias. Dias
depois, noutra reportagem outro jovem adulto
mostrava a sua casa vandalizada, apontando a
sala de onde tinham levado a TV e os DVD. A
seguir, transtornadíssimo, ia ao que tinha sido o
quarto dos filhos dizendo que 'até a TV e a
playstation das crianças' lhe tinham roubado.
Neste país, tão cheio de dificuldades para quem
tem rendimentos declarados, dinheiro público
não pode continuar a ser desviado para sustentar
predadores profissionais dos fundos constituídos
em boa fé para atender a situações excepcionais
de carência. A culpa não é só de quem usufrui
desses dinheiros. A principal responsabilidade
destes desvios cai sobre os oportunismos
políticos que à custa destas bizarras benesses,
compraram votos de Norte a Sul. É inexplicável
num país de economias domésticas
esfrangalhadas por uma Euribor com freio nos
dentes que há famílias que pagam 'quatro ou
cinco Euros de renda' à câmara de Loures e no
fim do mês recebem o rendimento social de
inserção que, se habilmente requerido por um
grupo familiar de cinco ou seis pessoas, atinge
quantias muito acima do ordenado mínimo. É
inaceitável que estes beneficiários de tudo e
mais alguma coisa ainda querem que os seus T2
e T3 a 'quatro ou cinco euros mensais' lhes
sejam dados em zonas 'onde não haja pretos'.
Não é o sistema em Portugal que marginaliza
comunidades. O sistema é que se tem vindo a
alhear da realidade e da decência e agora é
confrontado por elas em plena rua com
manifestações de índole intoleravelmente racista
e saraivadas de balas de grande calibre
disparadas com impunidade. O país inteiro viu
uma dezena de homens armados a fazer fogo na
via pública. Não foram detidos embora sejam
facilmente identificáveis. Pelo contrário. Do
silêncio cúmplice do grupo de marginais sai
eloquente uma mensagem de ameaça de
contorno criminoso - 'ou nos dão uma zona
etnicamente limpa ou matamos.' A resposta do
Estado veio numa patética distribuição de flores
a cabecilhas de gangs de traficantes e
autodenominados representantes comunitários,
entre os sorrisos da resignação embaraçada dos
responsáveis autárquicos e do governo civil. Cá
fora, no terreno, o único elemento que ainda nos
separa da barbárie e da anarquia mantém na
Quinta da Fonte uma guarda de 24 horas por dia
com metralhadoras e coletes à prova de bala.
Provavelmente, enquanto arriscam a vida neste
parque temático de incongruências socio-
políticas, os defensores do que nos resta de
ordem pensam que ganham menos que um
desses agregados familiares de profissionais da
extorsão e que o ordenado da PSP deste mês de
Julho se vai ressentir outra vez da subida da
Euribor.
NELA