sábado, 5 de setembro de 2009

"Este é o maior fracasso da
democracia portuguesa"‏

por Clara Ferreira Alves
Eis parte do enigma. Mário Soares, num dos momentos
de lucidez que
ainda vai tendo, veio chamar a atenção do Governo,
na última semana,
para a voz da rua.

A lucidez, uma das suas maiores qualidades durante
uma longa carreira
politica. A lucidez que lhe permitiu escapar à PIDE
e passar um bom
par de anos, num exílio dourado, em hotéis de luxo
de Paris.

A lucidez que lhe permitiu conduzir da forma
"brilhante" que se viu o
processo de descolonização.

A lucidez que lhe permitiu conseguir que os Estados
Unidos
financiassem o PS durante os primeiros anos da
Democracia.

A lucidez que o fez meter o socialismo na gaveta
durante a sua
experiência governativa.

A lucidez que lhe permitiu tratar da forma
despudorada amigos como
Jaime Serra, Salgado Zenha, Manuel Alegre e tantos
outros.

A lucidez que lhe permitiu governar sem ler os
"dossiers".

A lucidez que lhe permitiu não voltar a ser
primeiro-ministro depois
de tão fantástico desempenho no cargo.

A lucidez que lhe permitiu pôr-se a jeito para ser
agredido na Marinha
Grande e, dessa forma, vitimizar-se aos olhos da
opinião pública e
vencer as eleições presidenciais.

A lucidez que lhe permitiu, após a vitória nessas
eleições, fundar um
grupo empresarial, a Emaudio, com "testas de ferro"
no comando e um
conjunto de negócios obscuros que envolveram
grandes magnatas
internacionais.

A lucidez que lhe permitiu utilizar a Emaudio para
financiar a sua
segunda campanha presidencial.

A lucidez que lhe permitiu nomear para Governador
de Macau Carlos
Melancia, um dos homens da Emaudio.

A lucidez que lhe permitiu passar incólume ao caso
Emaudio e ao caso
Aeroporto de Macau e, ao mesmo tempo, dar os
primeiros passos para uma
Fundação na sua fase pós-presidencial.

A lucidez que lhe permitiu ler o livro de Rui
Mateus, "Contos
Proibidos", que contava tudo sobre a Emaudio, e ter
a sorte de esse
mesmo livro, depois de esgotado, jamais voltar a
ser publicado.

A lucidez que lhe permitiu passar incólume as
"ligações perigosas" com
Angola, ligações essas que quase lhe roubaram o
filho no célèbre
acidente de avião na Jamba (avião esse carregado de
diamantes, no
dizer do Ministro da Comunicação Social de Angola).

A lucidez que lhe permitiu, durante a sua passagem
por Belém, visitor
57 países ("record" absoluto para a Espanha - 24
vezes - e França -
21), num total equivalente a 22 voltas ao mundo
(mais de 992 mil
quilómetros).

A lucidez que lhe permitiu visitar as Seychelles,
esse território de
grande importância estratégica para Portugal.

A lucidez que lhe permitiu, no final destas
viagens, levar para a
Casa-Museu João Soares uma grande parte dos
valiosos presentes
oferecidos oficialmente ao Presidente da Republica
Portuguesa.

A lucidez que lhe permitiu guardar esses presentes
numa caixa-forte
blindada daquela Casa, em vez de os guardar no
Museu da Presidência da
Republica.

A lucidez que lhe permite, ainda hoje, ter 24 horas
por dia de
vigilância paga pelo Estado nas suas casas de
Nafarros, Vau e Campo
Grande.

A lucidez que lhe permitiu, abandonada a
Presidência da Republica,
constituir a Fundação Mário Soares. Uma fundação de
Direito privado,
que, vivendo à custa de subsídios do Estado, tem
apenas como única
função visível ser depósito de documentos valiosos
de Mário Soares. Os
mesmos que, se são valiosos, deviam estar na Torre
do Tombo.

A lucidez que lhe permitiu construir o edifício-
sede da Fundação
violando o PDM de Lisboa, segundo um relatório do
IGAT, que decretou a
nulidade da licença de obras.

A lucidez que lhe permitiu conseguir que o processo
das velhas
construções que ali existiam e que se encontrava no
Arquivo Municipal
fosse requisitado pelo filho e que acabasse por
desaparecer
convenientemente num incêndio dos Paços do
Concelho.

A lucidez que lhe permitiu receber do Estado, ao
longo dos últimos
anos, donativos e subsídios superiores a um milhão
de contos.

A lucidez que lhe permitiu receber, entre os vários
subsídios, um de
quinhentos mil contos, do Governo Guterres, para a
criação de um
auditório, uma biblioteca e um arquivo num edifico
cedido pela Câmara
de Lisboa.

A lucidez que lhe permitiu receber, entre 1995 e
2005, uma subvenção
anual da Câmara Municipal de Lisboa, na qual o seu
filho era Vereador
e Presidente.

A lucidez que lhe permitiu que o Estado lhe
arrendasse e lhe pagasse
um gabinete, a que tinha direito como ex-presidente
da República,
na... Fundação Mário Soares.

A lucidez que lhe permite que, ainda hoje, a
Fundação Mário Soares
receba quase 4 mil euros mensais da Câmara
Municipal de Leiria.

A lucidez que lhe permitiu fazer obras no Colégio
Moderno, propriedade
da família, sem licença municipal, numa altura
em que o Presidente
era... João Soares.

A lucidez que lhe permitiu silenciar, através de
pressões sobre o
director do "Público", José Manuel Fernandes, a
investigação
jornalística que José António Cerejo começara a
publicar sobre o tema.

A lucidez que lhe permitiu candidatar-se a
Presidente do Parlamento
Europeu e chamar dona de casa, durante a campanha,
à vencedora Nicole
Fontaine.

A lucidez que lhe permitiu considerar Jose Sócrates
"o pior do
guterrismo" e ignorar hoje em dia tal frase como se
nada fosse.

A lucidez que lhe permitiu passar por cima de um
amigo, Manuel Alegre,
para concorrer às eleições presidenciais uma última
vez.

A lucidez que lhe permitiu, então, fazer mais um
frete ao Partido Socialista.

A lucidez que lhe permitiu ler os artigos "O Polvo"
de Joaquim Vieira
na "Grande Reportagem", baseados no livro de Rui
Mateus, e assistir,
logo a seguir, ao despedimento do jornalista e ao
fim da revista.

A lucidez que lhe permitiu passar incólume depois
de apelar ao voto no
filho, em pleno dia de eleições, nas últimas
Autárquicas.

No final de uma vida de lucidez, o que resta a
Mário Soares? Resta um
punhado de momentos em que a lucidez vem e vai.
Vem e vai. Vem e vai.

Vai... e não volta mais.

Clara Ferreira Alves

Expresso