segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O
Ã
I ............por:
N.............. Mário (jornalista)
I ..................Crespo
P
O
........O processo Face Oculta deu-me,
finalmente, resposta à pergunta que fiz ao
ministro da Presidência Pedro Silva Pereira
-se no sector do Estado que lhe estava
confiado havia ambiente para trocas de
favores por dinheiro. Pedro Silva Pereira
respondeu-me na altura que a minha
pergunta era insultuosa. Agora, o
despacho judicial que descreve a rede de
corrupção que abrange o mundo da sucata,
executivos da alta finança e agentes do
Estado, responde-me ao que Silva Pereira
fugiu: Que sim. Havia esse ambiente. E diz
mais. Diz que continua a haver. A brilhante
investigação do Ministério Público e da
Polícia Judiciária de Aveiro revela um
universo de roubalheira demasiado gritante
para ser encoberto por segredos de justiça.
O país tem de saber de tudo porque por
cada sucateiro que dá um Mercedes topo de
gama a um agente do Estado há 50 famílias
desempregadas. É dinheiro público que paga
concursos viciados, subornos e sinecuras.
..............................Com a lentidão da Jus-
O SEGREDO DE JUSTIÇA..tiça e a panóplia de ar-
que se insiste..................tificios dilatórios à dis-
em praticar......................posição dos advoga-
em Portugal serve mais...dos, os silêncios dão
para proteger.................aos criminosos tempo.
prevericadores...............Tempo para que os de-
do que como garantia.....litoscaiam no esqueci-
democrática....................mento e a prática de
......................................crimes na habituação.
Foi para isso que o primeiro-ministro contribuiu
quando,questionado sobre a Face Oculta, respon-
deu:"O Senhor jornalista devia saber que eu não
comento processos judiciais em curso (...)".
O"Senhor jornalista" provavelmente já sabia,
mas se calhar julgava que Sócrates tinha
mudado neste mandato. Armando Vara é seu
camarada de partido, seu amigo, foi seu colega
de governo e seu companheiro de carteira
nessa escola de saber que era a Universidade
Independente. Licenciaram-se os dois nas
ciências lá disponíveis quase na mesma altura.
Mas sobretudo, Vara geria (de facto ainda gere)
milhões em dinheiros públicos. Por esses,
Sócrates tem de responder. Tal como tem de
responder pelos valores do património
nacional que lhe foram e ainda estão confiados
e que à força de milhões de libras esterlinas
podem ter sido lesados no Freeport.
Face ao que (felizmente) já se sabe sobre as
redes de corrupção em Portugal, um chefe
de Governo não se pode refugiar no "no
comment" a que a Justiça supostamente o
obriga, porque a Justiça não o obriga a nada
disso. Pelo contrário. Exige-lhe que fale. Que
diga que estas práticas não podem ser
toleradas e que dê conta do que está a fazer
para lhes pôr um fim. Declarações idênticas
de não-comentário têm sido produzidas
pelo presidente Cavaco Silva sobre o
Freeport, sobre Lopes da Mota, sobre o
BPN, sobre a SLN, sobre Dias Loureiro,
sobre Oliveira Costa e tudo o mais que tem
lançado dúvidas sobre a lisura da nossa
vida pública. Estes silêncios que variam
entre o ameaçador, o irónico e o cínico,
estão a dar ao país uma mensagem clara:
os agentes do Estado protegem-se uns aos
outros com silêncios cúmplices sempre
que um deles é apanhado com as calças
na mão (ou sem elas) violando crianças
da Casa Pia, roubando carris para vender
na sucata, viabilizando centros comerciais
em cima de reservas naturais, comprando
habilitações para preencher os vazios
humanísticos que a aculturação deixou
em aberto ou aceitando acções não cotadas
de uma qualquer obscuridade empresarial
que rendem 147,5% ao ano. Lida cá fora a
mensagem traduz-se na simplicidade
brutal do mais interiorizado conceito em
Portugal: nos grandes ninguém toca.